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domingo, 2 de outubro de 2016

O Poder de soltar I





O Poder de soltar I

Soltar não é deixar correr ou não fazer nada. É justamente o contrário. O conceito de ação através da não-ação precisa ser muito bem meditado para ser entendido. Já que esse conceito é um sentimento. Intelectualmente pode se pensar que é não fazer nada e esse é o perigo da inação. O soltar é interno, é um desapego interno, filosófico, existencial. É uma visão de mundo completamente antagônica ao apegar-se ao mundo. É estar no mundo, mas não ser do mundo.

E aqui é que começa a questão. Existe uma ciência por trás do soltar. Soltar não é apenas uma filosofia de vida, é a pura Teoria do Caos. É física no mais absoluto sentido. É entender exatamente como funciona o universo.

Na verdade, o termo Caos significa a mais perfeita Ordem. É o equilíbrio do universo. O universo detesta o desequilíbrio. Mais cedo ou mais tarde haverá um evento que retomará o equilíbrio universal. Todos estamos dentro do Caos embora não pareça. Com o aumento da percepção consciencial é possível perceber os padrões do Caos em que estamos envolvidos. O entendimento disso tem uma função extremamente prática na vida. Não é uma coisa abstrata. Todas as decisões que precisamos tomar na vida estão dentro deste conceito. Se as fizermos conscientes disto acertaremos sempre. E evitaremos sofrimentos desnecessários. Essa busca de equilíbrio chama-se auto-organização. O universo é um sistema auto regulador. Ele tem uma homeostase que corrige sempre os desvios que acontecem devido aos seres que habitam o universo. Desta forma o bem-estar geral é garantido sempre. 

Quando se fala que uma borboleta bate as asas no Brasil e provoca uma tempestade na Tailândia é a mais pura verdade. A influência pode parecer sutil, mas é extremamente poderosa. Um dos descobridores da Teoria do Caos foi Edward Lorenz, meteorologista, que percebeu o efeito repetitivo da iteração da sua fórmula de modelo climático. Os dados que saem da fórmula podem ser aplicados novamente na mesma fórmula e assim por diante, demonstrando a amplificação do feedback positivo ou negativo. É desta forma que a borboleta influencia tudo. Um pequeno gesto repetido inúmeras vezes. Nunca se deve achar que uma única pessoa não tem poder algum. É justamente o contrário. O poder de uma pessoa é o poder de uma borboleta. A borboleta pode bater as asas e os humanos podem tomar decisões. Essas minúsculas decisões diárias são o bater das asas da borboleta. 

A não-ação é a iteração da fórmula de Lorenz. A pessoa está deixando o universo funcionar por si só. Os dados entram outra vez na fórmula e provocam um resultado amplificado. Entram novamente na fórmula e vão exponenciando o resultado. Quando colocamos pressão ou ansiedade estamos querendo usar os resultados da primeira vez que usamos a fórmula. Isso é a pressa, o desespero, a força, a insistência, etc. É preciso deixar os dados entrarem outra vez na fórmula e assim por diante. Dando tempo ao tempo para que os resultados corretos apareçam. Sem pressa. Esperando o universo chegar no resultado que deve existir. Pode ser que para que uma solução apareça seja preciso aplicar a fórmula dez vezes ou cem vezes. Não há como saber quanto se deve esperar a computação da fórmula para aparecer o resultado. Deve-se soltar a pressa e esperar pacientemente até o fim. 

O deixar correr ou não fazer nada é a mesma coisa que não usar a fórmula. É preciso pôr os dados na fórmula e acompanhar o que acontece. Estamos falando de uma fórmula matemática. Não é um conceito metafísico. Quando fazemos nossa parte e soltamos o resultado é a mesma coisa que pôr o computador para funcionar e esperar o resultado. Imagine que sejam necessários trilhões de cálculos; isso levará um tempo e isso é o soltar. Esperar o resultado seja ele qual for. Não podemos manipular o computador para obtermos o que queremos. Temos de esperar. Querer manipular é a pressa, a ansiedade, a pressão, a força, o querer porque quer, etc. Fazemos tudo o que é possível e esperamos o resultado. E continuamos fazendo tudo que podemos dia a dia até o resultado aparecer. 

A descoberta da Teoria do Caos foi uma coisa extraordinária e está mudando toda a forma de ver o universo. Suas aplicações ainda estão sendo descobertas. E uma delas é o que estamos descrevendo aqui. Quando fazemos pressão estamos criando um efeito Zenão quântico. Paralisamos a realidade. É como parar o computador. Não se tem resultado algum. Quando soltamos a realidade e deixamos o computador trabalhar teremos o resultado. Seja ele qual for. 

Isso pode ser visto facilmente no mundo dos negócios. Quando forçamos um cliente a comprar o produto, quando fazemos mais dívidas para pagar outras dívidas, quando queremos que um negócio dê certo de qualquer forma, sem considerar todas as variáveis envolvidas no negócio. O ter que ganhar, ter que vender, ter que dar certo, ter que conquistar, ter de vencer, etc. é o que causa todo o problema. Nunca se pode por pressão em nada. Simplesmente não funciona. Quanto mais pressão menor o resultado.

Toda a realidade pode mudar apenas dependendo de pequenas decisões de cada pessoa de soltar os resultados. Não se apegar. Se o resultado são 10 ótimo, se são 100 ótimo. Está bom de qualquer forma. Quando se sente assim sempre o resultado será o melhor possível. Quando se quer forçar que seja 100 os problemas aparecerão inevitavelmente. É preciso deixar fluir e entrar no fluxo. O rio corre para o mar. Não é preciso preocupar-se com isso. Um bom dia dado com alegria e boa vontade tem um efeito multiplicador enorme. É um simples gesto que muda uma pessoa, que mudará outra, que mudará outra e ...

Agora vejamos o outro lado da moeda. Caso um vendedor receba uma ordem para prejudicar um cliente, fazendo um mau negócio para o cliente, e ele recusar-se a fazer isso qual é o resultado? Esta atitude de não prejudicar o cliente mudará a forma do cliente ver a vida e os negócios. Este cliente pode fazer a mesma coisa com seus próprios clientes e assim por diante. O efeito borboleta está criado. Até onde pode chegar esse efeito? Ninguém sabe, mas o potencial é gigantesco. Pode haver uma consequência negativa para o primeiro vendedor que não quis prejudicar? Pode. Mas, alguém tem de dar o primeiro passo. E só há necessidade do primeiro passo. O efeito funciona automaticamente. Mas, a decisão tem de ser tomada conscientemente. 

O filme “Decisão de risco”, “Eyes in the sky”, é um perfeito exemplo do poder das decisões individuais.


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