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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Pergunta


Pergunta

O universo é um sentimento.

A pergunta para quem já se unificou com o Todo é: o que você sente? Qual é o sentimento que permeia todo o seu ser? Qual é o sentimento que domina sua vida? Qual é o sentimento que orienta todos os seus atos? Qual é o sentimento que faz você viver? Qual é o sentimento que define a sua vida? 

O príncipe Sidarta Gautama, com 29 anos, resolveu enfrentar a questão que o atormentava. A sensação de que há algo profundamente errado com a existência. Ele então abandonou tudo para encontrar a resposta. E encontrou.

Essa é “a questão que nos move”, como dito em Matrix. 

Quando olhamos no espelho o que vemos? Um reflexo da realidade? O espelho reflete a realidade, mas nós interpretamos o reflexo. Nós não vemos a realidade claramente. Ela passa por inúmeros filtros até chegar na consciência. O que vemos é um pálido reflexo. Tudo está unificado e nós vemos tudo separado. Existe um emaranhamento quântico de tudo o que existe. Desde o início deste universo. Tudo está interligado. Isto é um fato físico. Porém, o ego quer manter tudo separado. Essa separação é que criou “a questão que nos move”. O que atormentava Gautama. O que ele enxergou como algo fundamentalmente errado na existência. Ele intuiu que tal separatividade estava errada. E não descansou até encontrar a resposta.

Nossa mente deveria ser um espelho que refletisse sem distorções a realidade última. Quando a mente chega nesse ponto ela está unificada. É o que se chama ser um canal. Tudo passa sem interferência. Esse era o objetivo de Gautama e ele conseguiu. Isso deveria ser a prioridade de todo ser. E assim o sofrimento desapareceria. O sofrimento está na separação. A felicidade na união.

Quando entortamos a colher não é a colher que estamos entortando. É a nossa mente que mudou. Entortamos a nossa mente. Mudamos as crenças. Mudamos de paradigma. E assim a colher entorta. Para chegar nesse ponto é preciso entender que não existe separação entre a colher, o espaço e nós. Tudo é uma coisa só. E é por isso que nossa consciência entorta a colher ou a colher entorta nossa consciência. Existe uma única energia no universo. Tudo o mais é organização em níveis desta energia. Sistemas dentro de sistemas dentro de sistemas...

Existe um mundo concreto. Dimensões reais. Só que normalmente só vemos maia, a ilusão. Para ver o mundo concreto é preciso querer ver. Crer para ver. Primeiro a pessoa acredita depois vê. Sem por força, sem pressa, sem ansiedade, sem pressão. Sem apego. Soltando como filosofia de vida. Sem reclamar de nada. Soltar e reclamar que soltou é pura perda de tempo. Soltar é um estado de consciência. É uma visão de mundo. Uma filosofia de vida.

Na vida é preciso pensar, analisar, refletir. Mas, isso tem um limite também. Uma fronteira. Além de um determinado ponto paralisa tudo. É o efeito Zenão. É preciso deixar fluir. O universo flui sem cessar. Pensar e soltar. Nunca ficar paralisado. Deixar fluir. O arqueiro, o arco, a flecha e o alvo são uma coisa só. É preciso soltar a flecha após um momento de fixação do alvo. Só para determinar o objetivo. Em seguida fluir, soltar a flecha. Isso é o Zen.

A ideia de um ego, de existir um “eu”, traz o sofrimento. Essa ideia paralisa. É um efeito Zenão. Quando a pessoa solta o ego e deixa as coisas fluírem naturalmente o sofrimento desaparece. No fluxo não existe sofrimento. No fluxo não existe um eu. Só existe o fluxo e a consciência pode fluir normalmente. Esse fluir é o estado de felicidade. Basta abstrair-se do ego e deixar fluir com a existência. Isso pode parecer muito esotérico, mas é a pura verdade. Quem já unificou sente isso claramente. E sente isso num único sentimento. Nada mais importa. Só o sentimento. Porque o sentimento é. A existência é. 

Por isso “ser ou não ser é a questão”.

No início existem momentos de fluxo, mas com o passar do tempo só existe o fluxo. O momento é o fluxo eterno. Nada mais importa. Só o fluxo. Nesse ponto estamos imersos na realidade última. Nesse ponto não existem palavras que possam descrever a sensação e o sentimento. Só vivenciando para saber como é. Por isso o Tao não pode ser explicado. Tem de ser vivido. Este é um momento de puro Zen.

Morpheus diz: “não pense, seja! ”. Isso é o fluxo da realidade última. Quando libertamos a mente é nesse estado que chegamos. E libertar a mente é enxergar as crenças que a aprisionam. Enxergar a realidade nua e crua.

Quando chegamos nesse ponto estamos prontos para optar por ser um bodhisattva. Guiar por compaixão.

Hélio Couto

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